Toda pesquisa séria começa pelo método. E é justamente aí que o levantamento divulgado pelo Instituto Luneta começa a ruir. O que se vende como “mapa político claro” em São José de Ribamar não passa de uma fotografia tremida, feita com lente fora de foco e apresentada ao público como se fosse retrato fiel da realidade.
A começar pelo universo amostral. Ouvir 822 eleitores em um dos maiores colégios eleitorais do Maranhão pode até atender ao mínimo estatístico formal, mas não sustenta, sob nenhum critério técnico rigoroso, afirmações categóricas sobre hegemonia, consolidação ou domínio político. Pesquisa não é palco para espetáculo retórico: é instrumento técnico. E aqui, o instrumento falhou.
O dado mais revelador — convenientemente empurrado para segundo plano — é o colapso da espontaneidade. Quando mais de 90% dos entrevistados não conseguem citar um único nome de forma livre, o que existe não é liderança consolidada, mas um vazio absoluto de referências políticas. Nesse cenário, qualquer resultado estimulado deixa de medir preferência real e passa a medir apenas reconhecimento induzido.
A taxa elevada de indecisos reforça o mesmo diagnóstico. Um eleitorado que não escolheu, não decidiu e não demonstra convicção não autoriza leitura triunfalista. Pelo contrário: exige cautela, parcimônia e honestidade intelectual. Transformar indecisão em hegemonia é inverter a lógica básica da análise eleitoral.
O levantamento, em vez de iluminar o cenário, o obscurece. Os percentuais apresentados não dialogam com densidade política, capilaridade social ou histórico eleitoral. São números isolados, descontextualizados e usados como verniz para sustentar uma narrativa previamente escolhida. Isso não é pesquisa como ciência; é pesquisa como peça publicitária.
Mais grave ainda é a tentativa de extrair projeções estaduais e leituras amplas a partir de um cenário local mal definido. Pesquisa municipal não é oráculo. E quando seus próprios indicadores internos apontam desorganização do eleitorado, qualquer extrapolação se torna exercício de imaginação, não de técnica.
No fim, o problema não está apenas nos números, mas no uso que se faz deles. O estudo não comprova liderança, não revela hegemonia e não autoriza conclusões enfáticas. Revela, isso sim, um quadro de indefinição profunda e a fragilidade de se tentar transformar um retrato incompleto em verdade absoluta.
Quando o método é fraco, a conclusão é barulhenta. E quando a manchete grita mais alto que os dados, o leitor atento percebe: não se trata de diagnóstico político, mas de narrativa empurrada goela abaixo. A pesquisa pode até ter números. Mas credibilidade, definitivamente, passou longe.

