O prefeito de Santa Luzia, Juscelino Marreca (PRD), é suspeito de usar o Instituto INGEST – Gestão de Pessoas e Sociedade para pagar lideranças políticas que trabalharam na campanha da esposa dele, Vanessa Marreca (MDB), candidata a deputada estadual nas eleições deste ano.
Vanessa foi eleita em 4 de outubro com 81.322 votos, a oitava mais votada para a Assembleia Legislativa do Maranhão.
O instituto tem seis contratos com a prefeitura que somam R$ 43.589.105,00 (quarenta e três milhões quinhentos e oitenta e nove mil cento e cinco reais). Desde setembro de 2025, já recebeu R$ 32.755.561,22 (trinta e dois milhões setecentos e cinquenta e cinco mil quinhentos e sessenta e um reais e vinte e dois centavos) dos cofres municipais. Só em 2026, ano da eleição, foram R$ 21.381.909,76 (vinte e um milhões trezentos e oitenta e um mil novecentos e nove reais e setenta e seis centavos) – quase o dobro do valor pago em 2025.
Os números em resumo
| O que | Valor |
|---|---|
| Valor total dos 6 contratos (TCE-MA) | R$ 43.589.105,00 |
| Pago em 2025 (set. a dez.) | R$ 11.373.651,46 |
| Pago em 2026 (jan. a set.) | R$ 21.381.909,76 |
| Total já pago | R$ 32.755.561,22 |
| Empenhado em 2026 e ainda não pago | R$ 1.608.945,62 |

Por que prefeitos usam institutos de terceirização
Contratar mão de obra por meio de institutos tem sido um caminho usado por muitos prefeitos para escapar dos limites de gastos com pessoal. Esses limites são fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e cobrados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA). Quando há dinheiro federal envolvido, como verbas do SUS e da educação, o Tribunal de Contas da União (TCU) também pode fiscalizar.
Na prática, a prefeitura não pode gastar com pessoal mais do que uma fatia da sua Receita Corrente Líquida (RCL), que é o dinheiro que entra no caixa no ano:
| Limite da LRF para a prefeitura (Poder Executivo) | % da Receita Corrente Líquida |
|---|---|
| Limite de alerta – o Tribunal de Contas avisa o prefeito | 48,6% |
| Limite prudencial – a prefeitura fica proibida de criar cargos, dar aumentos e fazer novas contratações | 51,3% |
| Limite máximo | 54% |
Quem passa do limite precisa cortar gastos e pode ter as contas reprovadas. Por isso, ao pagar trabalhadores por meio de um instituto, a despesa aparece como “serviço de terceiros”, e não como folha de pessoal.
A própria LRF, porém, manda contar como gasto com pessoal a terceirização que substitui servidores (artigo 18, parágrafo 1º). Além disso, esse modelo pode servir para garantir pagamentos a aliados e honrar compromissos políticos sem chamar a atenção dos órgãos de controle e fiscalização.
Repasses dispararam no ano da eleição
Em 2025, a gestão Juscelino pagou ao instituto R$ 11.373.651,46. Em 2026, o Blog Joerdson Rodrigues constatou que os pagamentos já chegam a R$ 21.381.909,76 – alta de 88% em relação ao ano anterior. Somando os dois anos, são R$ 32.755.561,22.
O salto ficou mais claro a partir de abril de 2026, meses antes das convenções partidárias e da campanha. No primeiro trimestre, a média era de R$ 1,4 milhão por mês. De abril a agosto, passou para R$ 3,4 milhões por mês, quase 2,5 vezes mais.
| Período | Média paga por mês |
|---|---|
| Set. a dez. de 2025 | R$ 2,84 milhões |
| Jan. a mar. de 2026 | R$ 1,39 milhão |
| Abr. a ago. de 2026 (pré-campanha e campanha) | R$ 3,44 milhões |
Agosto de 2026, mês em que a campanha começou oficialmente, teve o maior volume pago de todo o período: R$ 3.590.768,85. Em 29 de setembro, às vésperas da eleição, a prefeitura empenhou mais R$ 1.608.945,62 para o instituto, valor que ainda aparecia como não pago.
De onde saiu o dinheiro
Mais da metade do valor pago ao INGEST saiu da Educação, principalmente de recursos do Fundeb, destinado ao ensino fundamental. A Saúde também bancou parte dos pagamentos com verbas do SUS repassadas pelo Governo Federal.
| Área | 2025 | 2026 | Total |
|---|---|---|---|
| Educação | R$ 6.007.351,60 | R$ 11.140.135,99 | R$ 17.147.487,59 |
| Administração | R$ 2.622.510,93 | R$ 5.257.093,39 | R$ 7.879.604,32 |
| Saúde | R$ 2.743.788,93 | R$ 4.984.680,38 | R$ 7.728.469,31 |
| Total | R$ 11.373.651,46 | R$ 21.381.909,76 | R$ 32.755.561,22 |
Outro ponto que chama atenção: dos 53 empenhos feitos para o instituto nos dois anos, 52 aparecem no Portal da Transparência com a modalidade “dispensa”, ou seja, sem licitação.
Instituto nasceu em 2021
Os registros consultados mostram que o instituto foi criado em 2 de setembro de 2021, tendo como primeiro presidente Andre Luiz Damacena Almeida.
Inicialmente, a entidade possuía um perfil bastante diferente daquele apresentado atualmente. Ao longo dos anos seguintes, ocorreram diversas alterações que modificaram significativamente sua estrutura administrativa, sua razão social, endereço e até mesmo suas áreas de atuação.
Mudança de comando e transformação institucional
Em dezembro de 2024 ocorreu uma das principais mudanças da história da instituição.
Andre Luiz Damacena Almeida deixou a presidência, sendo substituído por Caique Melo Santos.
Na mesma época, houve alteração da razão social, deixando de utilizar o nome Instituto Ipe Roxo para passar a se chamar Ingest – Gestão de Pessoas e Sociedade.
A mudança não ficou restrita ao nome.
Poucos meses depois, em fevereiro de 2025, a entidade promoveu uma ampla reformulação em seu cadastro empresarial.
Ampliação expressiva das atividades
Os documentos mostram que o instituto deixou de possuir apenas atividades associativas para incorporar dezenas de novas áreas de atuação.
Entre elas estão:
- fornecimento e gestão de recursos humanos;
- locação de mão de obra temporária;
- consultoria em gestão empresarial;
- apoio à educação;
- treinamento profissional;
- atendimento hospitalar;
- serviços médicos;
- odontologia;
- enfermagem;
- fisioterapia;
- psicologia;
- laboratórios clínicos;
- vacinação;
- serviços de saúde em diversas especialidades;
- atividades culturais;
- impressão de publicações;
- ensino esportivo;
- agenciamento de profissionais.
A quantidade e a diversidade das atividades cadastradas chamam atenção por abranger setores bastante distintos entre si, permitindo que a entidade possa disputar oportunidades em diferentes áreas da administração pública.
Mudança de endereço para São Luís
Outra alteração relevante ocorreu em fevereiro de 2025.
O instituto transferiu seu endereço de Formosa (GO) para um escritório localizado no bairro Renascença, em São Luís (MA).
Posteriormente, em fevereiro de 2026, houve nova alteração cadastral, passando para outro endereço na região da Ponta do Farol, também na capital maranhense.
Nova troca de presidente
A movimentação administrativa continuou.
Em fevereiro de 2026, Caique Melo Santos deixou a presidência.
No mesmo período, Almir Gonçalves Coelho Neto assumiu oficialmente o comando da instituição.
As mudanças sucessivas na direção fazem parte da cronologia registrada nos órgãos competentes e ajudam a demonstrar uma intensa reorganização administrativa em um intervalo relativamente curto.