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BOMBA! Homem preso pela PF com quase R$ 1 milhão trabalha para a empreiteira Enciza, que tem quase R$ 300 milhões em contratos com prefeituras e o Governo do Maranhão

Dono da Enciza Engenharia, Lauro Moura

Auxiliar administrativo da Enciza Engenharia Civil levava R$ 998.980,00 no porta-malas. A PF suspeita de ligação com fraudes em licitação e desvio de recursos públicos. Levantamento do blog no Tribunal de Contas mostra que só a Secretaria de Infraestrutura do Estado contratou a empresa em quase R$ 170 milhões, um deles assinado há apenas três meses

Quase R$ 1 milhão em notas, guardado no porta-malas de um carro, circulando por São Luís. Foi isso que a Polícia Federal encontrou nesta quarta-feira (4/11), em uma ação com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU).

O dinheiro estava com João Pedro Mendes Pereira, auxiliar administrativo da Enciza Engenharia Civil Ltda, empresa do empresário José Lauro de Castro Moura.

Um levantamento inédito do Blog Joerdson Rodrigues no Sistema de Informações para Controle (SINC), do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), mostra o tamanho da empresa no dinheiro público maranhense: 19 contratos registrados, somando R$ 292.586.533,55, com o Governo do Estado e com prefeituras.

A prisão

Segundo a PF, o motorista tentou fugir da abordagem com manobras evasivas, mas foi parado pelas equipes. Na revista do veículo, os agentes encontraram R$ 998.980,00 em espécie no porta-malas.

Ele foi levado à Superintendência da PF no Maranhão, onde a prisão em flagrante foi formalizada pelo crime de lavagem de dinheiro. Depois do interrogatório, passou por exame de corpo de delito e foi transferido para o sistema penal.

As investigações preliminares da PF e da CGU apontam que o dinheiro pode estar relacionado a fraudes em licitação e desvio de recursos públicos. A PF vai continuar investigando para descobrir para onde o dinheiro ia e de onde ele saiu.

O mapa do dinheiro público

Os dados do TCE-MA mostram que a Enciza depende principalmente do Governo do Maranhão. Das 19 contratações registradas, o Estado responde por R$ 230,7 milhões, ou quase 79% do total. As prefeituras somam R$ 61,9 milhões.

ContratanteValor total% do total
Secretaria de Estado da Infraestrutura (Sinfra)R$ 169.475.455,1357,9%
Secretaria de Estado das Cidades (Secid)R$ 46.588.061,2315,9%
Prefeitura de Bernardo do MearimR$ 37.339.687,1812,8%
Trizidela do Vale (Prefeitura e Semif)R$ 11.174.916,193,8%
Secretaria de Estado de Governo (Segov)R$ 10.018.303,313,4%
Prefeitura de Paço do LumiarR$ 8.338.260,222,8%
Secretaria de Administração Penitenciária (Sejap)R$ 4.619.659,881,6%
Prefeitura de TutóiaR$ 2.730.011,880,9%
Prefeitura de Lima CamposR$ 2.302.178,530,8%
TotalR$ 292.586.533,55100%

Sinfra: dois contratos, R$ 169 milhões

A Secretaria de Estado da Infraestrutura é, de longe, a maior cliente da Enciza. São apenas dois contratos, que juntos passam de R$ 169 milhões.

O primeiro, o Contrato 008/2024, assinado em 11 de abril de 2024, vale R$ 110.445.259,59. Sozinho, ele representa mais de um terço de tudo o que a empresa tem contratado no Maranhão.

O segundo, o Contrato 033/2026, de R$ 59.030.195,54, foi assinado em 5 de agosto de 2026, três meses antes de a PF parar o carro com quase R$ 1 milhão em dinheiro vivo.

Secid: quase R$ 47 milhões

A Secretaria das Cidades e Desenvolvimento Urbano assinou dois contratos com a empresa. O 035/2021, de R$ 39.869.466,05, em agosto de 2021, e o 020/2020, de R$ 6.718.595,18, em julho de 2020.

Bernardo do Mearim: o mesmo valor, duas vezes

O caso de Bernardo do Mearim chama atenção. O sistema do TCE traz dois registros com valor idêntico, de R$ 18.669.843,59, com a mesma data de assinatura (28/06/2022) e o mesmo procedimento licitatório (AA142022). Só muda o número do contrato: um aparece como 093/2021, o outro como 93/2022.

Se for duplicidade de registro, o município terá informado ao Tribunal de Contas um contrato duas vezes, e o total real da Enciza cai para cerca de R$ 273,9 milhões. Se forem dois contratos, a prefeitura de um município pequeno do interior teria contratado a mesma empresa, no mesmo dia, pelo mesmo valor, duas vezes, somando R$ 37,3 milhões. Nos dois cenários, a prefeitura precisa explicar.

Trizidela do Vale: o cliente mais frequente

Em número de contratos, ninguém supera Trizidela do Vale. São sete contratações entre 2020 e 2026, feitas pela Prefeitura e pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Urbanismo (Semif), que somam R$ 11,17 milhões.

Os valores vão de R$ 48 mil a R$ 5 milhões. Um detalhe: o mesmo procedimento licitatório, a Concorrência 5/2021, aparece ligado a dois contratos diferentes, um de R$ 2.546.921,77 (maio de 2021) e outro de R$ 5.066.814,03 (maio de 2022). O contrato mais recente com o município, de R$ 1.549.939,52, foi assinado em janeiro de 2026.

R$ 24,7 milhões com informação recusada

Outro ponto grave: seis dos 19 registros aparecem no sistema do TCE com o status “Informação recusada”. Somados, eles chegam a R$ 24.736.967,63.

Estão nessa situação contratos da Segov (R$ 10 milhões), da Prefeitura de Trizidela do Vale (R$ 5 milhões), da Sejap (R$ 4,6 milhões), de Tutóia (R$ 2,7 milhões) e de Lima Campos (dois contratos, R$ 2,3 milhões).

Na prática, isso significa que as informações enviadas por esses órgãos sobre os contratos não foram aceitas pelo Tribunal de Contas. Ou seja, há quase R$ 25 milhões em contratos com a Enciza cujos dados não passaram pela validação do órgão de controle.

As perguntas que precisam de resposta

Outro lado

O Blog Joerdson Rodrigues procurou a Enciza Engenharia Civil Ltda, o empresário José Lauro de Castro Moura, a defesa de João Pedro Mendes Pereira, a Sinfra, a Secid e as prefeituras de Bernardo do Mearim e Trizidela do Vale para comentar a prisão, a origem do dinheiro e os contratos. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto.

Até o momento, a empresa e seu proprietário não foram formalmente acusados pela PF. O preso responde pelo flagrante de lavagem de dinheiro e tem direito à ampla defesa.

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