Levantamento do blog Joerdson Rodrigues em dados do Ministério da Saúde mostra que o dinheiro federal chegou todos os meses ao Fundo Municipal de Saúde de Santa Inês. Servidores do Hospital Tomaz Martins relatam até três meses sem salário.
A saúde de Santa Inês está em colapso, e falta de dinheiro não explica o problema. Em 2026, enquanto médicos e outros servidores do Hospital Municipal Tomaz Martins denunciam até três meses de salários atrasados e pacientes reclamam da falta de medicamentos, a gestão do prefeito Felipe dos Pneus recebeu do governo federal R$ 70.230.361,37 (setenta milhões duzentos e trinta mil trezentos e sessenta e um reais e trinta e sete centavos) só para a saúde.
O valor está em registros oficiais do Fundo Nacional de Saúde (FNS), do Ministério da Saúde, analisados pelo Blog Joerdson Rodrigues. Entre 9 de janeiro e 4 de novembro deste ano, foram 187 depósitos na conta do Fundo Municipal de Saúde de Santa Inês. Em média, mais de R$ 7 milhões entraram por mês nos cofres da saúde municipal.

A pergunta que servidores, pacientes e vereadores fazem é direta: se o dinheiro chegou, para onde ele foi?
Vereadores encontram servidores sem salário e secretaria sem respostas
Depois de uma série de denúncias, dois vereadores fizeram uma vistoria no Hospital Municipal Tomaz Martins. Lá, ouviram servidores que confirmaram os atrasos nos pagamentos. Há relatos de profissionais com até três meses sem receber.
Os parlamentares foram então à Secretaria Municipal de Saúde em busca de explicações. A secretária não estava no local. Até agora, ninguém da gestão explicou publicamente por que os salários não foram pagos, quanto a prefeitura deve aos servidores ou quando a situação será resolvida.
O dinheiro chegou, e chegou em grande quantidade
Os R$ 70,2 milhões são dinheiro federal, transferido fundo a fundo. A prefeitura ainda é obrigada por lei a aplicar ao menos 15% da própria receita em saúde, além de receber repasses do Estado. Ou seja, o caixa da saúde de Santa Inês em 2026 é ainda maior do que o valor apurado.
Veja como o dinheiro federal foi dividido:
| Área | Valor recebido em 2026 |
|---|---|
| Média e alta complexidade (hospital e ambulatórios) | R$ 33.052.297,58 |
| Atenção primária (postos de saúde e equipes) | R$ 29.007.736,80 |
| Gestão do SUS (piso da enfermagem) | R$ 5.080.691,32 |
| Vigilância em saúde | R$ 2.105.945,67 |
| Assistência farmacêutica (medicamentos) | R$ 628.190,00 |
| Atenção especializada | R$ 355.500,00 |
| Total | R$ 70.230.361,37 |
Quase metade de todo o dinheiro, R$ 33 milhões, foi destinada justamente à média e alta complexidade, área que custeia o atendimento hospitalar. É o hospital onde os servidores agora denunciam salários atrasados.
O repasse fixo mensal para procedimentos hospitalares e ambulatoriais, de cerca de R$ 1,17 milhão, caiu na conta da prefeitura todos os meses, de janeiro a outubro, sem nenhuma interrupção.
Dinheiro carimbado para salários também chegou
Parte dos recursos tem destino definido por lei: pagar profissionais de saúde. Os registros mostram que Santa Inês recebeu em 2026:
R$ 6.853.588,00 para os vencimentos dos Agentes Comunitários de Saúde; R$ 5.080.691,32 de assistência complementar para pagar o piso salarial da enfermagem; R$ 1.432.964,00 para os vencimentos dos Agentes de Combate às Endemias; e R$ 10.622.000,00 para manter as equipes de Saúde da Família, que incluem médicos, enfermeiros e técnicos.
Somente os repasses carimbados para salários de agentes e enfermagem chegam a R$ 13,3 milhões.
Remédio em falta, dinheiro em conta
A falta de medicamentos, outra queixa frequente da população, também não se explica pela ausência de repasses. A verba federal da assistência farmacêutica básica, de R$ 62.819,00, foi depositada regularmente ao longo do ano, somando R$ 628.190,00 até outubro.
R$ 30 milhões às vésperas da campanha
Um dado chama atenção na linha do tempo dos repasses. Em apenas dois meses, maio e junho, Santa Inês recebeu R$ 29,99 milhões, quase metade de tudo o que entrou no ano. Só em maio foram R$ 16,88 milhões.
O salto se deve principalmente a emendas parlamentares. Ao longo de 2026, o município recebeu R$ 16.723.639,00 em emendas destinadas à saúde, e R$ 13,29 milhões desse total foram depositados apenas em maio. São recursos de “incremento temporário” para custeio de hospitais e da atenção básica, ou seja, dinheiro que deveria reforçar o atendimento à população.
No primeiro semestre, antes das convenções partidárias, entraram R$ 52,96 milhões, o equivalente a 75% de tudo que foi recebido no ano. Durante o período oficial de campanha, entre 16 de agosto e 31 de outubro, chegaram mais R$ 10,47 milhões.
A suspeita: campanha da primeira-dama
É nesse cenário que cresce em Santa Inês a suspeita de que parte dos recursos possa ter sido desviada da finalidade para sustentar a campanha da primeira-dama Paula Prata (PSD), esposa do prefeito Felipe dos Pneus. Ela foi eleita deputada estadual em outubro com 52.300 votos.
A campanha de Paula Prata foi considerada robusta, com uma rede de lideranças espalhadas por diversas regiões do Maranhão. Manter essa estrutura até a reta final da eleição exige muito dinheiro.
Até o momento, não há prova documental de que verbas da saúde tenham ido para a campanha. Os dados do FNS mostram quanto entrou, mas não mostram como a prefeitura gastou. É exatamente por isso que a gestão precisa abrir as contas. Se os R$ 70 milhões foram aplicados corretamente, basta apresentar os pagamentos, contratos e a folha da saúde para encerrar a desconfiança.

As perguntas que a prefeitura precisa responder
Quantos servidores da saúde estão com salários atrasados, e há quantos meses? Qual o valor total da dívida com os profissionais? Onde foram aplicados os R$ 33 milhões recebidos para a média e alta complexidade? Em que foram usados os R$ 16,7 milhões em emendas depositados em 2026? Por que faltam medicamentos se a verba da assistência farmacêutica chegou todos os meses? Quando os salários serão pagos?
Os órgãos de controle, como o Ministério Público do Maranhão, o Tribunal de Contas do Estado e o Ministério Público Federal, que fiscaliza a aplicação de recursos federais, têm instrumentos para buscar essas respostas.