Uma investigação iniciada pelo blog Joerdson Rodrigues sobre a empresa S Monteiro Limitada, que, segundo documentos públicos e apuração realizada pela reportagem, recebeu mais de R$ 3,1 milhões em suas contas derivados de contratos para reformas de escolas e construção de uma ponte de concreto da Prefeitura de Presidente Sarney entre dezembro de 2025 até a presente data, apesar de apresentar características que despertam dúvidas sobre sua capacidade operacional.
De acordo com registros empresariais consultados pela reportagem, a empresa atualmente está registrada em nome de Emilly Horanne Sousa Morais. Entretanto, a trajetória do CNPJ revela uma série de alterações societárias e cadastrais ocorridas ao longo dos últimos meses.
Histórico da empresa
A empresa teve origem como Microempreendedor Individual (MEI), sendo aberta em 4 de dezembro de 2018 em nome de Laucira Pereira Camelo, com endereço registrado na Avenida Washington Luís, nº 479, bairro Fomento, em Pinheiro.
Documentos consultados apontam as seguintes alterações no cadastro empresarial:
- 04/12/2018 – Inscrição de Microempreendedor Individual (MEI);
- 04/12/2018 – Enquadramento de Microempresa;
- 03/01/2025 – Desenquadramento de MEI;
- 21/03/2025 – Transformação empresarial;
- 21/03/2025 – Alteração de dados e nome empresarial;
- 31/03/2025 – Alteração de dados;
- 14/07/2025 – Alteração de dados;
- 28/11/2025 – Outros documentos de interesse da empresa;
- 10/02/2026 – Balanço;
- 26/03/2026 – Alteração de dados.

Ainda segundo os registros analisados, Enoque Monteiro Junior passou a integrar o quadro societário em março de 2025. Poucos meses depois, em julho de 2025, houve nova alteração societária, transferindo a titularidade para Emilly Horanne Sousa Morais.
A investigação aponta ainda possíveis vínculos pessoais entre antigos e atuais integrantes ligados ao CNPJ, situação que, segundo especialistas em transparência pública, merece atenção quando empresas passam por mudanças frequentes em curtos períodos de tempo.
Sede da empresa existe apenas no papel?
Durante diligência realizada pela reportagem no município de Arari, onde a empresa informa estar sediada, foi constatado que o endereço registrado corresponde a um imóvel residencial localizado na Rua do Cemitério, nº 16, bairro Malvinas.

Segundo a apuração, não foram identificadas placas, fachadas comerciais, equipamentos, veículos, funcionários ou qualquer estrutura visível que indicasse o funcionamento de uma empresa responsável por contratos milionários de obras públicas.
A constatação levanta questionamentos sobre a capacidade operacional da empresa para executar contratos de grande porte, especialmente considerando que o capital social registrado é de R$ 150 mil.
Diante desse cenário, surgem perguntas relevantes para os órgãos de controle:
- Como uma empresa sem estrutura operacional visível conseguiu firmar contratos milionários?
- Quais critérios foram utilizados para comprovar sua capacidade técnica?
- Houve fiscalização prévia sobre a estrutura da empresa?
- Como ocorreu a contratação para execução de obras públicas, incluindo a construção de uma ponte de concreto?
Esses questionamentos ganham relevância diante da necessidade de garantir que recursos públicos sejam executados por empresas efetivamente aptas a realizar os serviços contratados.
Proprietária aparece como beneficiária do Bolsa Família
Outro ponto identificado pela reportagem envolve a atual proprietária da empresa.
Consultas realizadas em bases públicas indicariam que Emilly Horanne Sousa Morais figura como beneficiária do programa Bolsa Família desde 2023.
Questionada pela reportagem, Emilly teria afirmado inicialmente não receber o benefício. Posteriormente, ao ser confrontada com informações que indicariam a permanência de seu cadastro ativo, declarou não ter conhecimento de que continuava vinculada ao programa.
A situação chama atenção porque o Bolsa Família é destinado a famílias enquadradas nos critérios de renda estabelecidos pelo Governo Federal.
Importante destacar que eventual permanência de um beneficiário no programa não configura, por si só, irregularidade, sendo necessária análise dos órgãos competentes para verificar a atualização cadastral, renda familiar e demais requisitos exigidos pela legislação.

Ex-proprietária ocupa cargo na Prefeitura
A investigação também identificou que Laucira Pereira Camelo, primeira titular do CNPJ, possui vínculo com a Prefeitura de Presidente Sarney, exercendo o cargo de Auxiliar Administrativo.
Segundo a apuração, apesar da existência do vínculo funcional, o nome da servidora não foi localizado na folha de pagamento disponível no Portal da Transparência municipal.
A comprovação do vínculo teria sido obtida por meio de sistemas vinculados ao Tribunal de Contas do Estado (TCE).

A ausência de determinadas informações em portais de transparência pode dificultar o controle social e a fiscalização dos gastos públicos, razão pela qual especialistas defendem a divulgação integral e atualizada dos dados funcionais e financeiros da administração pública.
Relações pessoais e suspeitas levantadas pela investigação
Outro personagem citado na investigação é Agamenon, esposo de Laucira Camelo, apontado por fontes ouvidas pela reportagem como pessoa próxima ao prefeito Gilson Lima.

A investigação relata que ele seria apontado por algumas fontes como possível articulador das relações que culminaram na contratação da empresa junto ao município.
Até o momento, contudo, as informações apresentadas constituem elementos de apuração jornalística e demandam análise dos órgãos de fiscalização e controle para eventual confirmação ou descarte de irregularidades.
Caso pode atrair atenção dos órgãos de controle
Diante dos fatos levantados, especialistas em gestão pública apontam que situações envolvendo empresas com baixa estrutura operacional, mudanças frequentes de titularidade, contratações de elevado valor e possíveis vínculos políticos costumam justificar análises por órgãos como Ministério Público, Tribunal de Contas, Controladoria-Geral e demais instituições responsáveis pela fiscalização do uso de recursos públicos.
A investigação do Blog Joerdson Rodrigues continua acompanhando o caso e buscando esclarecimentos das pessoas citadas, garantindo espaço para manifestação e contraditório de todos os envolvidos.
Até o momento, não há decisão judicial transitada em julgado que comprove irregularidades envolvendo a empresa ou seus representantes, cabendo às autoridades competentes a análise dos fatos apresentados.
