A empresa F R Negócios Ltda que petence a um verdadeiro pródigio das licitações no estado já recebeu quase R$ 16 milhões de prefeituras maranhenses. A maior parte veio de Tuntum, onde a gestão do prefeito Fernando Pessoa pagou R$ 12.421.565,11 à empresa entre abril de 2025 e setembro de 2026. Os números constam nos portais da transparência e foram levantados pelo blog Joerdson Rodrigues.
A empresa pertence a Felipe Rezende Aragão, irmão do deputado eleito Ivo Rezende Aragão e sobrinho do prefeito de São Mateus, Miltinho Aragão.

Tuntum: mais de R$ 1 milhão em um único mês
O primeiro pagamento de Tuntum à empresa é de 11 de abril de 2025. Até 31 de dezembro, a prefeitura pagou R$ 8.356.759,54, uma média de cerca de R$ 930 mil por mês. Só em julho de 2025, os pagamentos chegaram a R$ 1,44 milhão.
Em 2026, de janeiro até 29 de setembro, foram pagos mais R$ 4.064.805,57. Há ainda cerca de R$ 198 mil reservados (empenhados) para a empresa que não haviam sido pagos até a data dos dados.
Ao todo, o portal registra 582 empenhos em favor da F R Negócios: 278 em 2025 e 304 em 2026.
Para onde foi o dinheiro
Quase tudo, R$ 12,2 milhões (98% do total), foi pago como “material de consumo”. Cerca de R$ 202 mil aparecem como serviços prestados por pessoa jurídica.
Os pagamentos saíram principalmente das áreas de saúde e educação:
| Área | 2025 | 2026 | Total |
|---|---|---|---|
| Saúde | R$ 3.983.649,87 | R$ 1.360.083,68 | R$ 5.343.733,55 |
| Educação | R$ 3.165.757,96 | R$ 1.562.990,04 | R$ 4.728.748,00 |
| Urbanismo | R$ 1.195.595,41 | R$ 1.128.049,47 | R$ 2.323.644,88 |
| Assistência Social | R$ 11.756,30 | R$ 13.682,38 | R$ 25.438,68 |
Dinheiro do SUS e da educação
Boa parte desse dinheiro não saiu só do caixa da prefeitura. Segundo o portal, R$ 4,5 milhões vieram de repasses federais do SUS e mais de R$ 2,5 milhões do Salário-Educação, além de verbas do Fundeb e do programa de transporte escolar (PNATE). É dinheiro que deveria ser aplicado em postos de saúde, hospitais e escolas.
Licitação não aparece no portal
Nos 631 registros de Tuntum, o campo “Processo Licitatório” está em branco, e a modalidade aparece como “outro/não aplicável”. O portal, portanto, não informa por qual licitação ou contrato a empresa foi contratada.
Faturamento em outros municípios
Tuntum não é o único cliente da F R Negócios. Segundo levantamento do blog, a empresa também recebeu de outras prefeituras maranhenses:
| Município | Valor recebido |
|---|---|
| Tuntum | R$ 12.421.565,11 |
| Turilândia | R$ 2.691.387,55 |
| Tutóia | R$ 512.764,43 |
| Primeira Cruz | R$ 340.623,20 |
| Total | R$ 15.966.340,29 |
Turilândia chama atenção
Entre os municípios, chama atenção a presença da empresa em Turilândia, segunda maior pagadora da F R Negócios, com quase R$ 2,7 milhões.
A cidade, na Baixada Maranhense, é palco de um dos maiores escândalos de corrupção do Maranhão nos últimos anos. Em dezembro de 2025, o Gaeco, grupo do Ministério Público do Maranhão que combate o crime organizado, deflagrou a Operação Tântalo II, que cumpriu mais de 70 mandados e bloqueou R$ 22 milhões em bens de investigados. oimparcialoimparcial
A operação levou à prisão de 21 pessoas, entre elas o prefeito afastado Paulo Curió (União Brasil), a primeira-dama Eva Curió e a vice-prefeita. Os onze vereadores do município, um secretário e empresários também foram alvos. Segundo o Ministério Público, o esquema teria desviado mais de R$ 56 milhões em recursos públicos, com fraude milionária na compra de combustíveis e uso de verbas públicas para despesas pessoais. Política · corrupção +3
Em janeiro de 2026, o MPMA denunciou Paulo Curió e mais nove pessoas por integrar organização criminosa, e os desembargadores do Tribunal de Justiça aprovaram por unanimidade a intervenção estadual em Turilândia. O governador Carlos Brandão nomeou o defensor público Thiago Josino Carrilho de Arruda Macêdo como interventor. Justiça · corrupção +2
Até o momento, não há informação pública de que a F R Negócios seja investigada na Operação Tântalo. Ainda assim, o fato de a empresa ter faturado milhões numa prefeitura que se tornou símbolo de corrupção no estado reforça a necessidade de os órgãos de controle olharem com atenção para esses contratos.
Como funcionaria o suposto esquema
De acordo com as informações obtidas pelo blog, a F R Negócios seguiria um padrão para vencer licitações nos municípios onde atua. O principal ponto seria a influência política da família de Felipe Aragão, que tem um irmão eleito deputado e um tio prefeito.
Funcionaria assim, segundo as fontes: quando uma prefeitura abre uma licitação, várias empresas se inscrevem para disputar o contrato. Quem conduz a disputa é o pregoeiro, um servidor nomeado pela própria prefeitura. Ele analisa os documentos e as propostas de cada concorrente e pode tirar da disputa a empresa que não cumprir alguma exigência do edital. Isso se chama desclassificação ou inabilitação.
É nessa etapa que estaria o problema. Segundo as informações apuradas, pregoeiros agiriam a mando de prefeitos para desclassificar empresas concorrentes, usando supostas “artimanhas”, como exigências exageradas, interpretações rigorosas demais do edital ou a recusa de documentos por detalhes. Com os concorrentes fora do caminho, a F R Negócios ficaria livre para vencer.
Na prática, quando isso acontece, a prefeitura deixa de escolher a proposta mais barata ou mais vantajosa, e quem perde é o dinheiro público.
Órgãos de controle de olho
Ainda segundo as fontes, esse modo de atuação teria despertado a atenção de órgãos de controle e fiscalização, que estariam acompanhando a participação da empresa em licitações e contratos públicos pelo Maranhão.