Imagens enviadas ao blog mostram janelas e peitoris tomados por fezes, penas e restos de aves ao lado de berços. Pais também reclamam de ar-condicionado quebrado.
Um pai que acompanha a filha recém-nascida internada na Maternidade Benedito Leite, em São Luís, procurou o Blog Joerdson Rodrigues para denunciar uma situação que, segundo ele, coloca em risco a saúde dos bebês e das mães que estão na unidade.
O relato chegou ao blog acompanhado de fotos e vídeos gravados dentro de um dos quartos onde ficam mães e recém-nascidos. As imagens foram feitas entre a tarde de terça-feira (3) e esta quarta-feira (4).
O material mostra o acúmulo de fezes de pombos, penas e restos de sujeira nas janelas e no peitoril do quarto, a poucos centímetros dos berços onde os bebês ficam deitados.
A Maternidade Benedito Leite é uma unidade pública que atende gestantes e recém-nascidos em São Luís. A denúncia preocupa não apenas as famílias que estão internadas agora, mas todas as que dependem do atendimento no local.
Veja o vídeo:
Berço ao lado da janela suja
As imagens recebidas pelo blog mostram um cenário de insalubridade dentro de um ambiente que deveria ser um dos mais limpos e protegidos de um hospital.
Em um dos vídeos, um berço de acrílico, usado para acomodar o recém-nascido ao lado da mãe, aparece encostado na janela do quarto, que fica aberta. Ao lado do berço estão equipamentos e objetos pessoais das famílias.
Outro vídeo mostra a parte externa da janela. A parede, os vidros e o peitoril estão cobertos por uma camada escura de dejetos de pombos, com manchas esbranquiçadas de fezes escorrendo pela superfície. Na foto enviada ao blog, é possível ver de perto penas, restos secos de fezes, terra e sujeira acumulados no parapeito, além de tubulações e fiações cobertas de sujeira.
No mesmo quarto, as imagens mostram leitos ocupados por mães e bebês, com a claridade e o ar de fora entrando diretamente pela janela aberta.
Os dois problemas apontados pelos pais
De acordo com o relato, a situação é resultado de dois problemas que se somam.
1. Ar-condicionado quebrado. Segundo os pais, os aparelhos de ar-condicionado do quarto não estão funcionando. Com o calor de São Luís, a única saída para mães e bebês é manter as janelas abertas durante o dia. Com isso, a poeira, as penas e os resíduos secos das fezes acumulados do lado de fora podem ser levados pelo vento para dentro do quarto.
2. Falta de dedetização e controle de pragas. O pai afirma que não há controle eficiente de pragas no prédio. Sem medidas para afastar as aves, os pombos passaram a usar as janelas e beirais da maternidade como pouso e abrigo, e a sujeira se acumula sem limpeza adequada.
A combinação dos dois problemas é o que torna a situação mais grave: as janelas precisam ficar abertas justamente onde a sujeira das aves está concentrada.
Por que isso é perigoso para os bebês
O pombo é chamado popularmente de “rato com asas” porque, assim como os ratos, vive perto das pessoas e pode transmitir várias doenças. Especialistas em saúde pública alertam que o maior risco não é o contato direto com a ave, e sim com as fezes.
Quando secam, as fezes viram um pó fino que se mistura à poeira. Esse pó é levado pelo vento e pode ser respirado por quem está por perto, sem que a pessoa perceba. As penas também carregam poeira, fungos, ácaros e outros microrganismos. Em um quarto com janela aberta ao lado de um peitoril sujo, esse material pode chegar até os berços.
Doenças ligadas às fezes e penas de pombos
- Criptococose: causada pelo fungo Cryptococcus, que se desenvolve nas fezes secas de pombos. A pessoa se contamina ao respirar o pó. A doença atinge principalmente os pulmões e, nos casos graves, pode chegar ao cérebro e causar meningite, uma inflamação que pode deixar sequelas ou levar à morte.
- Histoplasmose: infecção causada pelo fungo Histoplasma, também presente em locais com acúmulo de fezes de aves. Provoca febre, tosse, cansaço e dificuldade para respirar. Em quem tem a imunidade baixa, pode se espalhar pelo corpo.
- Salmonelose: infecção causada pela bactéria Salmonella, que pode estar nas fezes das aves. Provoca diarreia, vômitos, febre e desidratação. Em bebês, a desidratação acontece rápido e pode ser grave.
- Psitacose (ornitose): doença causada pela bactéria Chlamydia psittaci, transmitida por aves. Os sintomas lembram uma gripe forte ou pneumonia: febre, tosse, dor no corpo e falta de ar.
- Alergias e crises respiratórias: a poeira das penas e dos dejetos pode irritar as vias respiratórias e provocar espirros, chiado no peito e falta de ar, especialmente em quem já tem asma ou problemas respiratórios.
- Ácaros e piolhos de pombo: pequenos parasitas que vivem nas aves e nos ninhos e podem picar pessoas, causando coceira, manchas e irritações na pele.
Por que os recém-nascidos correm mais risco
Nos primeiros dias e semanas de vida, o sistema de defesa do organismo do bebê ainda está em formação. Ele ainda não tem proteção própria contra a maioria dos microrganismos e depende em parte dos anticorpos recebidos da mãe.
Além disso, as vias respiratórias do recém-nascido são pequenas e sensíveis. Uma inflamação ou acúmulo de secreção que causaria só um incômodo em um adulto pode dificultar muito a respiração de um bebê. Recém-nascidos também respiram mais rápido que os adultos, o que aumenta a quantidade de ar, e de poeira contaminada, que entra nos pulmões.
Os mais vulneráveis são os bebês prematuros, os que nasceram com baixo peso e os que já têm problemas respiratórios ou outras complicações. Para eles, uma infecção pode evoluir rápido e exigir internação em UTI neonatal.
As mães que acabaram de dar à luz também ficam mais expostas. Depois do parto, especialmente após uma cesariana, o corpo está em recuperação e mais sujeito a infecções.
Sinais de alerta para os pais
Orientação geral para famílias: procure a equipe médica imediatamente se o bebê apresentar algum destes sinais:
- febre ou temperatura do corpo muito baixa;
- respiração rápida, com esforço ou chiado;
- tosse persistente ou lábios arroxeados;
- recusa para mamar, sonolência excessiva ou choro diferente do normal;
- diarreia, vômitos ou sinais de desidratação, como fralda seca por muitas horas;
- manchas ou irritações na pele.
O que as regras exigem dos hospitais
As normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serviços de saúde exigem que hospitais e maternidades mantenham programas de controle de vetores e pragas, limpeza adequada dos ambientes e manutenção dos sistemas de climatização.
Em unidades que atendem recém-nascidos, esses cuidados fazem parte do controle de infecções hospitalares, um dos principais pontos de atenção na segurança dos pacientes. A presença de aves e o acúmulo de dejetos junto aos quartos indicam falha nesses cuidados.